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Sábado, Julho 11, 2009
24 Terminou no canal 2 mais uma temporada de "24 Horas". Sou um apreciador desta série, em que o agente Jack Bauer (notar a sonoridade germânica do nome) passa 24 horas contadas ao segundo a salvar a América de ameaças variadas, contando com o apoio da tech-nern Chloe e de meios tecnológicos capazes de fazer virar a cabeça do Mr. Sulu. Em temporadas passadas chocou-me o recurso frequente dos "bons" a métodos de tortura, sempre com as melhores intenções de obter rapidamente a informação que permitiria salvar dezenas, milhares ou o que fosse de pessoas inocentes. Nunca compreendi a filosofia de trocar ética por vidas subjacente às temporadas da era Bush, mas o certo é que nesta temporada da era Obama que agora acabou a unidade contra-terrorista foi extinta, há uma mulher na presidência, os "métodos avançados de extracção da informação" foram abandonados, e o último episódio brindou-nos com um Bauer a morrer e arrependido. A série foi fraca. Etiquetas: TV
Sexta-feira, Julho 10, 2009
Sotaque Gostei muito deste texto de JPP na Sábado, e fiquei a pensar que, daquelas coisas, a única que não conheço é o “se bem me lembro” dito com o sotaque cerrado do Nemésio. Tento imaginar o tal sotaque cerrado, mas não consigo. Experimento dizê-lo à inglesa, à alemã, à francesa. Russo é difícil, são poucas palavras, sai igual ao português. Os sotaques nacionais tampouco funcionam. Saem ridículos. Finalmente, lembro-me. Censuro-me a falta de discernimento. Já está.
Segunda-feira, Julho 06, 2009
Entre os nastúrcios e a bergamota Com este post, o The Orwell Prize deixou de ser um blogue dedicado exclusivamente à contagem de ovos e a acompanhar a floração dos nastúrcios e da bergamota, passando a relatar também alguns dos acontecimentos políticos daquele mau ano de 1939. A Polónia já ameaça ocupar Danzig, a Grã Bretanha prepara-se para emprestar 100 milhões à Polónia, Roménia e Turquia para armas, e os polacos acreditam em Molotoff.
Se fosse hoje, o que escreveria George Orwell no seu diário? Talvez encontrássemos, entre notas sobre a temperatura e os proventos da vinha, um post sobre mais um míssil "testado" pela Coreia do Norte, uma notícia de jornal sobre a instabilidade no Irão, uma reportagem salientando os esforços de apaziguamento de Obama no Egipto e na Rússia. Pergunto-me se, daqui a setenta anos, serão essas as coisas que alguém irá procurar nos arquivos da blogosfera, entre alusões às mortes de Pina Bausch e de Michael Jackson, e aos cornichos puerilmente apontados pelo ministro Pinho a um parlamentar sem história.
O que escreverão os bloggers de hoje para a História? Etiquetas: citações
Quinta-feira, Julho 02, 2009
Apenas Dizer apenas que se toda a gente falar e escrever apenas como fazer os Comentadores de Futebol na televisão (pausa ligeiramente assertiva de auto-importância) dizer apenas que também mim escrever.
Quarta-feira, Julho 01, 2009
Troca Não terá passado despercebida ao leitor habitual a quantidade de "papel para reciclar" que trazia o Expresso desta semana. Em contrapartida, na semana passada faltava no meu saco o suplemento "Actual", isto é, faltava no meu saco a crónica de Luís Fernando Veríssimo. E fiquei muito amofinado, porque eu não passo sem o Veríssimo. Etiquetas: leituras
É para rir? O que José Manuel Fernandes faz é desvalorizar o testemunho empírico, — o registo de quem acertou ou falhou —, para nos dizer que nos 28 estão « os mais respeitados economistas portugueses ».
E vá lá, vá lá, isto para não dizer que devia haver uma moratória de cinco anos para a conjunção das palavras "respeitados" e "economistas" na mesma frase. Etiquetas: citações
Infeliz Era só para chamar a atenção dos 13.78 leitores para este sobriíssimo artigo que explica o que não se deve fazer para resolver uma crise económica. Só duas passagens:
The recovery from the Depression is often described as slow because America did not return to full employment until after the outbreak of the second world war. But the truth is the recovery in the four years after Franklin Roosevelt took office in 1933 was incredibly rapid. Annual real GDP growth averaged over 9%. Unemployment fell from 25% to 14%. The second world war aside, the United States has never experienced such sustained, rapid growth. However, that growth was halted by a second severe downturn in 1937-38, when unemployment surged again to 19% (see chart). The fundamental cause of this second recession was an unfortunate, and largely inadvertent, switch to contractionary fiscal and monetary policy. (...) If the government withdraws support too early, a return to economic decline or even panic could follow.
Depois de fazerem aquilo que vocês sabem que nós sabemos que estão a pensar fazer não digam, como de costume, que foi tudo completamente inesperado. Etiquetas: economia
Quarta-feira, Junho 24, 2009
Mais palavras e imagens
Para juntar a esta lista: Robert Frost e Tarantino (Death Proof), sugestão do Rui, e versos da Odisseia, de Homero, em The Reader (Stephen Daldry), e o poema To An Athlete Dying Young, de A. E. Housman, em "África Minha" (Sydney Pollack), ambos sugestões do Divas e Contrabaixos. Muitos obrigados.
Entretanto lembrei-me de mais um: em "Quem Tramou Roger Rabbit" (Robert Zemeckis), Roger declama uma versão adulterada (como não podia deixar de ser -- o que esperavam de um desenho animado?) de How Do I Love Thee?, de Elizabeth Barrett Browning. É o soneto XLIII dos Sonnets from the Portuguese, livro que comprei na Feira do Livro por 2 euros, uma relação qualidade-preço sem mácula.
Agora do que eu gostaria mesmo era que alguém sugerisse um de Robert Browning (gosto de simetrias). Etiquetas: poesia
Terça-feira, Junho 23, 2009
Contradição performativa Transcrevo um excerto da crónica de António Guerreiro (cuja leitura não dispenso), do Expresso, acerca da prova de Português:
E porque nada pode ser deixado à mercê de decisões e interpretações pessoais, os examinadores chegam ao ponto de avisar, na pág. 7: “Página em branco”. Mas aqui incorrem numa contradição que não admitiriam aos alunos: a chamada ‘contradição performativa’, que consiste em dizer algo que é imediatamente desmentido por aquilo que se faz: nenhuma página pode ser em branco se nela está escrito “Página em branco”.
Ignoremos por instantes o absurdo de deixar em branco uma página ímpar. A chamada de atenção do cronista arrisca-se a provocar nos burocratas uma fuga em frente: para o ano, é provável que na pág. 7 esteja o texto: "Página em branco, à excepção do presente período".
O zelo burocrático, por muito longe que possa ser levado, não impede que todos os anos sejam detectados erros nas provas. Nestes casos, todas as indicações se tornam irrelevantes enquanto balizas destinadas a formatar as respostas para que a avaliação seja tão objectiva quanto possível. O aluno que consiga detectar o erro ver-se-á confrontado com a contradição de responder a um enunciado inconsistente com os seus conhecimentos.
(Via Ainda não começámos a pensar.) Etiquetas: notícias, país
Terça-feira, Junho 16, 2009
Juventude inquieta Desta vez foi de Paulo Rangel que o Expresso escreveu ser, até há pouco tempo, um "jovem" desconhecido do grande público, revelado pelo bom resultado que obteve nestas eleições europeias. Nada a comentar, excepto o atestado de juventude. Triste sucesso o destes políticos, de serem sempre "jovens" até aparecerem as primeiras grisalhas, sem nunca serem realmente adultos. Assim lidam os dinossauros dos partidos com os jovens lobos, para que aprendam, primeiro, depois imitem. Etiquetas: país, política
Segunda-feira, Junho 01, 2009
Jovens velhos e velhos jovens Há poucos dias um jornal, já não sei se o Público ou o Expresso, escrevia que Nuno Melo atingira a "maioridade política" com o inquérito parlamentar ao BPN. Não sei que idade terá quem escreveu a notícia, mas sei duas coisas: que o deputado em questão tem 43 anos; e que ele já está na Assembleia há tempo suficiente para ter atingido a maioridade política há um ror de anos. Algo vai muito mal num país em que a mentalidade dominante é a de que se é "jovem" até aos 40 anos e em que os cargos de responsabilidade são sempre desempenhados por homens (e algumas mulheres) grisalhos. Curiosamente, quando algum destes responsáveis comete um erro, ninguém lhe aponta a idade já entradota; mas se um "jovem" de 40 anos se engana não tardam a surgir as acusações "da inexperiência", e "da juventude". Que contraste com o país que elegeu um presidente de 47 anos de idade, e onde o homem encarregue do desmantelamento da General Motors tem apenas 31 anos.
[No último meio século foram eleitos três presidentes americanos com menos de 50 anos.] Etiquetas: notícias, país
Como análise matemática I studied Sebald like calculus. I couldn’t say what I hoped to learn. (via Vertigo.) Etiquetas: literatura, Sebald
Segunda-feira, Maio 18, 2009
Escolha o seu Em Chacun son Cinéma não é difícil identificar os realizadores de alguns dos segmentos: adivinhei David Lynch, Gus Van Sant, Raoul Ruiz, Aki Kaurismäki, Wong Kar Wai, Olivier Assayas. Fixaram um estilo e mantêm-se-lhe fiéis, e ao seu público. Manoel de Oliveira filma um sketch cómico, facilmente identificável pelos actores. Nanni Moretti é Nanni Moretti e vale sempre a pena, mesmo por três minutos. Alguns dos filmes de que mais gostei são de realizadores de que conheço pouco ou nada: os irmãos Dardenne, Abbas Kiarostami e Hou Hsiao-Hsien.
No sketch de Moretti parece estar implícita uma auto-crítica: ele conta à câmara que, no cinema com o filho, enquanto passava o trailer de Matrix Reloaded, se viu obrigado a explicar "estes filmes não são do género dos que o pai faz". Quase um pedido de desculpas a nós, espectadores, por não fazer filmes do género do Matrix. (Nós sabemos, Nanni, nós sabemos e gostamos de ti à mesma.)
Uma boa parte dos segmentos têm um travo de amargura, pelas salas de cinema quase vazias, pela promessa da "obra vista" por cumprir. Aqueles que são mais optimistas parecem ser os que não temem a sala vazia, os que até apreciam. Coisas interessantes podem acontecer numa sala quase vazia (van Sant). Até porque, quando há muita gente, certos espectadores podem não se dar bem e a coisa acabar mal (von Trier, claro).
O título em português deste filme ficou "Cada um o seu cinema" quando deveria ser "A cada um o seu cinema", que é o que significa em francês. Terá sido tradução automática?
Adenda a 19-05: o comentador "dbborroughs" do imdb diz que viu este filme "num DVD chinês" ao qual faltava a contribuição dos irmãos Coen. Ora eu, por muito que me esforce, também não me lembro de ver nenhum segmento dos Coen. A película em exibição no El Corte Inglés de Lisboa terá sido feita a partir do (já mítico) DVD chinês? Alguém me elucida? Etiquetas: cinema
Sexta-feira, Maio 15, 2009
Palavras e imagens Mais dois filmes com poemas para juntar a esta lista: The Lake Isle of Innisfree (ainda Yeats), em Million Dollar Baby, de Clint Eastwood (sugerido pela Ana), e Le Voyage, de Charles Baudelaire, em La Vie des Morts, de Arnaud Desplechin (sugerido pelo Alexandre).
Adenda a 18-05: A lista cresce mais um pouco, desta feita com as sugestões da c. de cinema em português: João César Monteiro, Manoel de Oliveira e Pedro Costa, para começar. Etiquetas: cinema, poesia
Segunda-feira, Maio 11, 2009
Bartolomeu dos Santos
Foi exibido ontem na RTP2 um excelente documentário de Jorge Silva Melo sobre o artista Bartolomeu dos Santos (1931-2008), gravador, pintor e escultor. Foi o segundo filme da série de documentários da Midas Filmes para a RTP2 sobre Figuras Relevantes da Cultura Portuguesa. Transcrevo do email de divulgação que recebi da Midas Filmes:
"Entre conversas com Bartolomeu e alguns dos seus mais próximos (como Paula Rego, Helder Macedo, John Aiken, Manuel Augusto Araújo, Valter Vinagre), procuro fazer um breve retrato deste homem das sete partidas do mundo, artista multifacetado, irónico, romântico, terno, grande conhecedor do mundo, das viagens e das técnicas, grande conhecedor das letras, e fazer ver como ele, em cada obra que faz, gravura, pintura, escultura ou... convoca todo o tempo passado, todas as terras distantes, sabendo, com Eliot, que "tempo passado e tempo futuro estão ambos presentes no tempo presente". Um retrato de um homem que, aos 14 anos, no Chrysler do seu avô, foi de Lisboa a Paris em 1946, e viu desfilar a terra devastada depois da II Guerra Mundial.
E é por terras devastadas, ruínas, labirintos, mares que ele, sempre menino e sempre marinheiro, procura... e procura o quê?"
Uma das coisas de que que mais gostei neste programa foi de ver o artista a trabalhar, das mãos sujas da tinta, de o ver a rodar a prensa, a ajustar a pressão, a dosear as cores, do ateliê que mais parecia uma oficina. Da mistura de trabalho criativo e técnico que implica a feitura de uma gravura. A outra foi a admirável amplitude dos interesses do homem, entre as artes plásticas e a literatura.
A imagem (daqui) é uma gravura de uma série a celebrar a Ode Marítima. Etiquetas: artes, documentos, TV
Quinta-feira, Maio 07, 2009
Desaparecer Porquê no estrangeiro? Mais interessante é desaparecer no próprio país de origem, ou na cidade onde sempre se viveu. Continuar a frequentar os mesmos lugares. Fazer-se desaparecer é uma arte que poucas pessoas dominam (embora certas lojistas e empregados de mesa nos façam pensar que temos um talento especial para a invisibilidade). A maioria dos desaparecidos são pessoas que não querem ser encontradas. Algumas pessoas desaparecem e voltam a ser encontradas anos mais tarde a viver vidas iguais às que tinham antes. Propositadamente ou não, a verdade é que estamos sempre a desaparecer, é só passar o tempo suficiente e puf! a pessoa que ali estava já é outra. Je est un autre, não era? Etiquetas: perplexidades
Y
"Deitada de través em cima do largo divã, os seus braços tomam de súbito a postura de dois ramos oblíquos, na quase pânica expectativa de sentir-se adorada. Devagar os vai depois estreitando, até que ficam inteiramente estirados para trás; mas já as pernas entretanto começaram a reproduzir, em posição inversa, o grafismo da mesma letra."
É assim que o narrador de "Um Amor Feliz", de David Mourão Ferreira, começa por descrever a mulher que habitualmente vem encontrá-lo no estúdio em que trabalha. É um parágrafo de que não gosto. Talvez por me parecer forçado que um escultor -- o narrador -- pudesse exprimir-se como acho que um escritor o faria. Talvez por me parecer que não consegue evitar a vulgaridade (o que, de resto, estaria plenamente de acordo com a antipatia molenga que a personagem me inspira). Além disso, esta descrição tem o efeito curioso de, sempre que vejo alguém referir-se a outrem por uma simples maiúscula, tentar imaginar como, e em que circunstâncias, poderia um corpo moldar-se à forma dela. E às vezes não é fácil.
(Fora isso, gostei do livro.) Etiquetas: livros
Quarta-feira, Maio 06, 2009
Corrente Por acaso, dei com este post antigo em que falo de uma misteriosa "corrente dos filmes" que alguém me passou (e a que nunca respondi). O que seria? Alguém sabe? Etiquetas: blogues
A banda sonora de Lost Highway O terceiro post sobre Lost Highway vai para a banda sonora. David Lynch tem uma reputação de eclectismo musical que não deixa por mãos alheias, e a que faz jus plenamente neste filme. Nele pontificam duas canções memoráveis (e que não conhecia): I'm deranged, de David Bowie (who else?), e uma versão de Song to the Siren pela voz envolvente de Elizabeth Fraser. Esta última é um original de Tim Buckley (cujo filho Jeff teve uma ligação amorosa com Fraser -- coisa curiosa, esta, das histórias das versões das canções). Também não passam despercebidos dois temas (não sei se posso chamar-lhes canções...) da banda de rock industrial alemã Rammstein. É só descobertas. Etiquetas: cinema, David Lynch, música
Terça-feira, Maio 05, 2009
There is no such thing as a bad coincidence Lost Highway é um filme firmemente ancorado ao universo noir -- a análise de Zizek é exemplar, tanto na forma como o situa neste contexto como no desenvolvimento da interpretação psicanalítica. Se dúvidas houvesse, algumas cenas remetem para um dos mais proeminentes exemplares da filmografia deste género, a saber, Kiss Me Deadly, de Robert Aldrich.
Será coincidência duas das principais cenas de Lost Highway consistirem, uma, nos traços de uma auto-estrada que desfilam incessantemente, outra, na imagem recorrente de uma misteriosa casa que se reconstrói numa explosão invertida, com a imagem a correr em "reverse"?
[Infelizmente não encontrei uma imagem da casa, e o meu DVD recusa-se a carregar no computador...]
 Será coincidência o filme de Aldrich começar quando o (anti-)herói, ao conduzir a alta velocidade, se vê obrigado a dar boleia a uma mulher que o faz parar na estrada, e terminar com a explosão de uma casa misteriosa à beira-mar? A referência parece evidente.

 Sucede, contudo, que onde Aldrich filma uma explosão de violência descontrolada no ambiente de suspeição da sociedade americana durante a guerra fria, Lynch mostra-nos o turbilhão psíquico auto-conflitual de um homem em crise na sociedade suburbana, hiper-controlada e asséptica da América contemporânea.

E essa mudança de perspectiva muda tudo, porque passamos de uma história detectivesca muito à frente do seu tempo, a oscilar entre o noir clássico e o filme de acção, para um objecto novo. O subtítulo do argumento (que tem a co-autoria de Lynch e Barry Gifford) é "A 21st century horror movie". Talvez não seja por acaso.
Nota à parte: apesar de ter feito a obra-prima que é Kiss Me Deadly, parece-me que Robert Aldrich ficou mais conhecido como director de westerns; isto, a ser mais que uma impressão infundada da minha parte, será uma tremenda injustiça. Etiquetas: cinema, David Lynch, noir
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