Sierra Nevada
Linha dos Nodos
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Sexta-feira, Outubro 14, 2005  

Sobre a gripe das aves (2)

Começou no blog Conta Natura uma coluna sobre a influenza. Fiquei a saber que "o Subdirector Geral de Saúde afirmou peremptoriamente que não havia qualquer perigo de transmissão homem-homem após infecção a partir das aves doentes". Ora sabe-se que não é bem assim e que há uma hipótese, embora baixa, de o vírus mutar. A revista L'Express publicou recentemente um artigo sobre o tema e em França tem-se falado dele abertamente e sem alarmismos.

Segundo o DN, Portugal encomendou Oseltamivir (também chamado Tamiflu) em quantidade suficiente para proteger 25% da população. No entanto, um estudo apontava para 30% de pessoas tocadas pelo vírus no caso de deflagração de uma pandemia. Parece-me que alguém deveria perguntar o porquê de deixar quinhentas mil pessoas desprotegidas.

No caso de uma pandemia, uma vacina só poderá ser desenvolvida depois de identificados os primeiros casos. Ora sabe-se que a capacidade mundial de produção é insuficiente. Segundo o Economist (24 de Setembro, acesso pago), 70% dessa capacidade está na Europa (França, Reino Unido, Itália, Holanda e Alemanha), mas é provável que os países que a detêm se preocupem primeiro em proteger a sua população, impondo limites à exportação. Funcionaria a solidariedade intra-europeia (já para não falar da devida ao resto do mundo) em tais circunstâncias? Esta capacidade limitada é uma das razões porque a OMS aconselha a vacinação contra a gripe "normal": uma procura acrescida obrigaria os laboratórios a aumentar a capacidade de produção, ficando o mundo mais bem preparado para lidar com uma eventual pandemia.

Da caixa de comentários:
A pergunta que se deveria fazer e: porque adquirir um stock tao grande. O HPAI tal qual se encontra actualmente nao e transmissivel de humano para humano (ou fracamente transmissivel o que em termos epidemiologicos vai dar ao mesmo) para que uma pandemia se forme o virus tera de sofrer mais uma mutacao.
Ora a estirpe actual e sensivel ao tratamento anti-viral (mas nao muito diga-se a bem da verdade) quando ocorrer mutacao pode ate suceder que o virus se torne insensivel ao anti-viral! [Lowlander]


Minha resposta:
De acordo, a estirpe actual é pouco sensível ao anti-viral. Quer isto dizer que em algumas pessoas o tratamento com esse anti-viral funciona (i.e., diminui a probabilidade de um desfecho fatal), e noutras não? Mas se for assim, sabemos em que pessoas ele funciona, de maneira a adminstrar o tratamento só a elas? Se não sabemos, então não compreendo a lógica.

Acrescento que não sou especialista, e tudo o que escrevo aqui sobre este tema não é mais que uma opinião informada. Dada a importância do tema, os comentários, sobretudo os que acrescentem ou corrijam informação serão bem-vindos.

[Nota: a emissão radiofónica de que falei anteriormente já não está em linha.]

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Comentários:
obrigado, nem imaginará o importante que me é este tipo de notícias/condução. temo, não aí, o pior
 
Esta mensagem foi removida por um administrador do blogue.
 
A pergunta que se deveria fazer e: porque adquirir um stock tao grande. O HPAI tal qual se encontra actualmente nao e transmissivel de humano para humano (ou fracamente transmissivel o que em termos epidemiologicos vai dar ao mesmo) para que uma pandemia se forme o virus tera de sofre mais uma mutacao.
Ora a estirpe actual e sensivel ao tratamento anti-viral (mas nao muito diga-se a bem da verdade) quando ocorrer mutacao pode ate suceder que o virus se torne insensivel ao anti-viral!

 
Caro DL:

Os medicamentos anti-virais sao tradicionalmente pouco eficazes, actualmente voce tem umas pomadas contra o herpes, e acima de tudo cocktails contra o HIV, ora se investigar nenhum deles cura pessoas, reduzem sintomas, adiam o inevitavel... Porque? Devido a diferente natureza dos virus e muito mais dificil desenvolver substancias que sejam especificamente toxicas so para virus e nao toxicas (ou pouco toxicas) para organismos multicelulares como o Homem (ja reparou como os anti-virais tem sempre muito mais efeitos secundarios que os antibioticos? e ainda por cima menos eficazes!).

Que quero eu dizer com este palavreado todo? Que contra virus nao existe "balas magicas". O que existe e prevencao.

 
Continuacao:

Ora no caso da gripe das aves o que situacao e que temos?
1 - Um virus importante em termos de saude animal mas de fraca importancia (por enquanto) para a saude humana.
2 - A possibilidade desse virus mudar e tornar-se patogenico para o ser humano.
3 - Uma droga carissima (cara de produzir e, cereja no topo do bolo, produzida exclusivamente por um laboratorio)
4 - Eficacia reduzida: nao resulta em todos os pacientes, tem efeitos secundarios e o efeito mais provavel e reducao da intensidade dos sintomas.
5 - Um virus que tem de mudar para se tornar perigoso para o Homem. Se e quando essa mudanca se der o virus podera ficar mais sensivel ao anti-viral, menos ou exactamente igual, pode ate ficar extremamente sensivel a OUTRAS drogas anti-virais! Nao se sabe, ainda nao existe, e uma ameaca abstracta.
6 - Recursos escassos e muitas outras desgracas para tentar combater.
7 - Outros meios de combater epidemias: isolamento de doentes, quarentena, treino de equipas especializadas de actuacao rapida no terreno, desinfeccao de instalacoes, treino das pessoas em higiene pessoal. Todos estes meios sabemos que a sua eficacia NAO e variavel com o virus e necessitam de ser colocados no terreno se uma epidemia ocorrer e sao precisos recursos para os preparar.

Portanto a minha pergunta permanece: porque manter um stock tao grande? O que andam a fazer os nossos parceiros europeus? Nao seria mais sensato fazer protocolos para todos os Estados-membros partilharem os seus stocks em caso de necessidade?

 
No que respeita aos estados-membros, a França também constituiu um stock, ao nível do Estado, com uma encomenda de 13.8 milhões de tratamentos. Nas farmácias o medicamento em cápsulas já esgotou porque estas fizeram as encomendas baseadas na procura do ano passado(ver aqui).
 
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