Sierra Nevada
Linha dos Nodos
Don't wear sandals, Try to avoid the scandals [Dylan]


Quinta-feira, Agosto 31, 2006  

Baby-boom, Papy-boom
Como filho de baby-boomers até podia sentir-me ofendido com José Pacheco Pereira. Até podia sentir-me enervado com José Medeiros Ferreira. E os plumitivos até podiam não compreeender os porquês. Mas deixemo-nos de gracinhas. Até agradeço, e explico. O primeiro escreve isto:

Enquanto os baby boomers se agarram aos anos terminais do seu poder (veja-se o Público de hoje), os seus filhos da "geração rasca" deram origem a uma era dos engraçadinhos. Ser engraçadinho está muito bem representado nos blogues, e vai a par com os Morangos, a Floribela e a nova Gente, no modo actual de ser leve e fácil e borbulhante e popular.


E o segundo escreve um texto que todo ele me eriça os cabelos, e de que transcrevo o fim:

Só ao regressar à AR em 1995, cinquentão, senti já não ser o eterno benjamim. Mas será que me bastou essa dura realidade nacional para me curar desse complexo? De maneira alguma! Voltei a sentir-me bastante jovem durante a candidatura presidencial de Mário Soares! Por isso não sigo o desabafo de Clinton até ao fim e aconselho-o a esperar pelo menos até aos 64. Para cantar a canção dos Beatles. Depois se verá. O dever da nossa geração é aumentar a média da esperança de vida activa para os vindouros!

Terei percebido bem? Para José Pacheco Pereira a geração rasca de há 16 anos tornou-se hoje numa geração de engraçadinhos? Até podia concordar, se não achasse que há muito mais do que engraçadinhos nessa geração. Em particular há muitos deprimidos, mas esses não aparecem na TV saltitante. Era bom não generalizar. O que temos de perguntar é se a geração do baby-boom, que tudo ocupou e tão bem que toda a pessoa que manda tem cabelos brancos, deixou alguma alternativa aos seus filhos além da gracinha. Uma geração que veio, viu e venceu, que tomou tudo o que podia tomar, e que, embora seja hoje, em geral, menos qualificada que a dos seus filhos, continua a tudo controlar, como muito bem diz JPP, agarrando-se aos anos terminais do seu poder. Agarrando-se aos anos terminais do seu poder, repito propositadamente. Uma geração que conseguiu produzir o milagre de ser mais rica que a geração seguinte, e que se agarrará àquilo que há 30 anos lhe caiu do céu (quase) de mão beijada até ao último suspiro. Não passar o testemunho, nada de passar responsabilidades, parece ser, sempre foi, o lema dos quinquagenários, não se sabe muito bem porquê, talvez porque a nossa geração é que era (é sempre assim), a revolução pá, os olhos do mundo postos em nós pá, érregêá porque sim (mas também não havia numerus clausus nem propinas), revolta estudantil como em Nanterre e depois na Sorbonne, sous les pavés la plage aqui pá, mas talvez esteja a ser injusto claro, reconheço que estou a ser injusto, ajudaram a fazer cair o regime e só temos de estar gratos, nós os trintões que não têm nenhum acontecimento épico para tirar da cartola. Estou a visar uma ideia que me fiz ou me fizeram de certo grupo, raramente aprecio borbulhâncias e levezas mas apesar disso estou na geração rasca, a que envelheceu para o humor engraçadinho - mas atenção, envelheceu de mão dada com os contratos a termo certo e os recibos verdes. E depois os soldados, note-se, fizeram a revolução (de repente toda a gente era pela revolução, as mentalidades mudam da noite para o dia). Houve dificuldades, mas de repente... havia que ocupar lugares, tomar posições, reconstruir claro à maneira daquela geração que estava no lugar certo na hora certa. Os seus filhos teriam em condições normais a prosperidade assegurada, mas depois foi a crise, depois o FMI, depois a crise, depois a racionalização, depois o défice, e apesar das licenciaturas e dos mestrados desculpem, a crise, o défice, está difícil para todos (ou nem desculpem, acho que nem desculpem).

Voltando a algo que escrevi aqui, a média de idades dos deputados à Assembleia da República é de 48 anos, e a dos juízes do Tribunal Constitucional é de 55 anos. As figuras que vemos no panorama político são as mesmas há pelo menos 15 anos. Idem alguns dos rostos principais dos media. E sindicalistas jovens, existem? A geração de Medeiros Ferreira faz qualquer trintão desejar ter pelo menos um Aljubezinho no currículo. Done that, been there. Melhor é impossível. A geração dos quinquas acha que foi mesmo a melhor de sempre, e acha que o mereceu. Ainda hoje li outra coisa excelente para exemplificar este meu arremedo de argumento, desta feita pelo punho de Mário Bettencourt Resendes, outro conhecido quinquagenário (ou quase, não sei ao certo). Diz ele que estes jovens de agora (não os trintões, os que são mesmo jovens) só se interessam pelo imediato. No tempo de MBR é que era, mas MBR não tinha a informação quando queria, tinha quando podia.

A geração rasca não está zangada. Está só ausente. Ficou à porta. A geração maravilha, pelas mãos dos seus mais ilustres e instruídos representantes (a leitura dos cvs dos deputados é altamente... instrutiva) durante todos os anos em que dirigiu o país conseguiu a proeza de manter Portugal na cauda da Europa e de criar um défice que ninguém consegue resolver. Deixou aos seus filhos uma situação demográfica onerosa (o papy-boom está a chegar), agravada pelas generosas reformas que muitos dos seus lídimos representantes auferirão durante longos e risonhos anos, pois que contribuiram para isso (embora poucos saibam para onde terá ido o dinheiro). Só espero que, nos anos de poder que lhe restam e de que não abre mão, que ainda hão-de ser alguns, consiga fazer tudo o que não fez em 20 anos: que o dinheiro das reformas apareça, que transmita o poder de forma justa e sem ressentimentos, e que, vá lá, tenha uma palavrinha simpática para aqueles que irão escrever a história depois dela, essa geração fantástica. Se é que pensa deixar alguma coisa com que escrever.


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