Terça-feira, Abril 07, 2009
Imagens, e palavras
Por alguma razão imprecisa, tenho tendência para gostar de filmes em que uma das personagens diz um poema. A voz humana dá às palavras uma intensidade que não podem ter quando são lidas, e o contexto particular da cena em que o realizador escolhe integrá-las reforça esse efeito. Aqui vão alguns:
Em Artificial Intelligence, de Steven Spielberg, o menino que quer tornar-se humano e o andróide amigo dele consultam um oráculo, que depois de várias tentativas responde com o poema The Stolen Child, de W. B. Yeats.
Em Hannah and Her Sisters, de Woody Allen, um Michael Caine apaixonado provoca um encontro casual com Lee, numa livraria, e oferece-lhe um livro de e. e. cummings em que marcou a página de somewhere I have never travelled,gladly beyond.
Em Rois et Reine, de Arnaud Desplechin, a personagem deste angustia-se com um detalhe de tradução de The Circus Animals' Desertion, também de Yeats, o que o leva a ter um sonho que discute num admirável diálogo com a psicanalista. Noutra cena, o advogado cita em tom jocoso dois versos de El Desdichado, de de Nerval.
Em Kiss Me Deadly, de Robert Aldrich, uma mulher que é assassinada deixa uma pista: Remember, de Christina Rossetti.
Em Quatro Casamentos e Um Funeral, é lido Funeral Blues, de W. H. Auden. No funeral.
He Wishes for the Cloths of Heaven (mais Yeats) também aparece num filme, mas não me lembro em qual.
Outros:
Em O Espelho, de Andrei Tarkovsky, a poesia de Arsenyi Tarkovsky é um elemento fundamental do filme.
(Recordo-me que em Alice, de Allen, a personagem de Alice lê um livro de Edna St. Vincent Millay, mas penso que nesse filme não é dito nenhum poema.)
O Cyrano de Bergerac (representado por Gérard Depardieu), por razões óbvias.
As várias versões de peças de Shakespeare encontram-se num grupo à parte por o texto ser todo em verso, mas se tivesse de destacar um, seria o Henry V, de Kenneth Branagh (a primeira realização dele, e uma portentosa interpretação).
Diz-se que Portugal é um país de poetas, mas não conheço nenhum filme português capaz de entrar nesta lista.
A lista sofre do enviesamento do meu gosto pessoal e memória. Quem se lembra de outros? Etiquetas: cinema, poesia
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