Terça-feira, Agosto 10, 2010
O Delfim
 "Puxo pela memória: Estes tipos quanto mais nos olham menos nos querem ver… – era a tal regra. O Engenheiro completara -a com o exemplo dum celebrado tio Gaspar que só descia à aldeia para ouvir missa e que, mesmo então, nunca fitava ninguém de frente. Fazia -o por pena, dizia ele. Receava que essa gente cegasse quando lhe sentisse o brilho do olhar. Pelo que vim a saber de Tomás Manuel nos nossos serões na Casa da Lagoa, acredito que estivesse assim naquele instante: pé no acelerador, soberano ao tempo e aproveitando, sem o saber, as regras dos grandes defuntos. A própria Dona da Pensão, tão pausada, tão arranjadeira, afirma que havia nele um coração largo e um cata -vento de caprichos; que ora seguia as lições do pai e do avô, pessoas de amigo conviver, ora as do citado tio Gaspar, o fidalgo do olhar que cegava. Tinha fases, dizia ela. E eu: «Fases?» Corto as considerações da minha hospedeira porque me vem à lembrança um estrondo poderoso, rasgando a aprumada linha do meio -dia. Que é isto?, perguntará, se perguntar, alguém desprevenido. O largo ficou a tremer, o Jaguar transformou -se num ronco que já passou a aldeia, que já se perdeu na estrada e uiva pela serra acima, a devorar curvas sobre curvas até mergulhar no pinhal e deter-se a meia encosta sobre a lagoa. É ali a casa." Etiquetas: livros
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